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Uma crônica sem-vergonha

Por George dos Santos Pacheco
08/04/26 - 09:12

"Os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha" (Maquiavel)

Lembro que antigamente não era assim tão comum tanta gente frequentar academias de ginástica; hoje em dia, meu senhor, a prática se tornou tão corriqueira que é quase impossível o cara caminhar pelo burgo sem esbarrar em uma a cada cem metros. Tem mais academia por aí do que vaga de estacionamento. Também pudera, numa época em que se consolida a ideia de que a atividade física regular melhora a circulação sanguínea, ajuda a emagrecer, e diminui o risco de doenças cardíacas, o homo sapiens que não faz musculação, não anda de bicicleta, não faz caminhada, nem tem uma airfryer é, no mínimo suspeito. Muito suspeito.

Pois além da busca por um corpo bonito e saudável, eu acabei de descobrir mais um motivo pra fazer reforço muscular e manter o preparo físico: "vergonha", marombeiro leitor. Isso mesmo.

Eis que um conhecido cronista da pequena e pacata cidade de Nova Friburgo estava numa igualmente conhecida academia destas plagas, realizando esbaforido o último exercício do dia, quando um colega se aproximou. "Chapa, você poderia me dar uma mão pra erguer o peso aqui?", pediu ele, com naturalidade. "Claro, irmão!", respondi, com naturalidade maior ainda. Acontece que na ocasião eu não estava suscetível a esse tipo de sutilezas e nem me passou pela cabeça que o peso poderia ser maior do que eu pudesse suportar. Adivinha?

O exercício do camarada era o tal do crucifixo inclinado, em que o atleta fica deitado num banco, num ângulo de 45°, com os pés pra cima, movimentando halteres até a linha do peito. Os ditos halteres estavam no chão, ao lado do atleta já posicionado no estofado. Peguei o peso com uma das mãos e puxei; meu corpo se envergou todo como se eu fizesse uma série de agachamento – e nada do halter sair do lugar. Busquei auxílio da outra mão e ergui o peso cerrando os dentes e estufando as veias do pescoço, entregando-o rapidamente ao colega. Passei a mão na testa suada e pus as mãos na cintura. Puta que pariu, faltava ainda o outro.

Por uma fração de segundos o peso me encarou e eu o encarei de volta, o rosto ruborizado, a boca contorcida num esgar envergonhado. Desta feita já fui com as duas mãos para não ficar feio de mais; bufei, travei os dentes e entreguei o halter. O colega agradeceu e quando ele começou o exercício, aproveitei e me afastei o máximo possível. Vai que ele pede ajuda de novo?

A vergonha, meu senhor, é um dos melhores motores para uma verdadeira mudança de hábitos, acredite. Preciso treinar mais. Da próxima vez que um colega da academia pedir ajuda com pesos, ou uma senhora no mercado solicitar apoio com as sacolas, melhor dizer que minha religião não permite, simular desmaio, fingir não compreender sua língua. Se não der certo, pelo menos escrevo uma crônica sem-vergonha a respeito.


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